PARADIGMAS SUBMERSOS AOS POEMAS DE ELÍSIO MIAMBO: "Muedas" e " To whom do you belong?"

O exercício da escrita, da leitura/interpretação e análise são um leque vasto de desafios. Quando a prior olhamos para “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas”, ficamos perplexos, pois nada sabíamos, se não um livro lançado por Elísio Miambo – escritor moçambicano e amante das Letras, talvez seja o motivo principal que o levou a considerar: “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” como ponto e/ou reflexo do seu segundo livro. Esse exercício, aproxima-se ao nosso reflexo da Diáspora da Literatura Moçambicana, afinal – cada escritor moçambicano encontra numa dimensão tripartida suas afeições: Lírica, Narrativa e Dramática. Elísio Miambo, neste exercício, aponta o hibridismo como sua aspiração, apontando suas expressões literárias, emparelhadas em um género artístico Hip-Hop. Através dessa fragmentação, pensamos no seu prefácio: “nem poesia, nem prosa, um senão prosódico expressivo e contemplativo”. O livro intitulado Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas está dividido em (3) três Actos: sendo primeiro (Catarse); segundo (Kiini), por fim, terceiro acto (Epístolas). O exercício encontra bases nestas divisões apresentadas no livro de Elísio Miambo, publicado na segunda chamada literária Fundza. Seus pontos decorrentes deste exercício marcam os paradigmas submersos aos poemas elisianos – segundo recitou a MA. Helena no seu Artigo Científico. Neste sentido, contamos, “Muedas”, um dos poemas seleccionados para o exercício e que consta do primeiro acto do Livro (“Catarse”) e, por fim, (“To whom do you belong?”) – apresentado no segundo acto (Kiini). A nossa reflexão mediante esses poemas não implica, necessariamente o desfavorecimento dos demais, porém, encontramos simetrias inegáveis para o nosso exercício de análise. Por via disso, indagamo-nos perante o exercício: Será que vale o esforço? Será que há necessidade de se perder recursos para que tal o seja? Olhe, as respostas mergulham em nós, encontrando bases que edificam o nosso pensar supremo, daí, Elísio Miambo frisou em sua nota: “os livros não são apenas letras. Objecto. São vidas”. Assim garantimos nossa forma de prospectar, de conversar com o autor através dos poemas: Muedas e To whom do you belong? Acreditamos ter sido seu prefácio que nos fez entender as palavras de Horácio: “recomendo aos jovens poetas, respeito aos modelos gregos e a busca do equilíbrio entre as partes do poema, observando o “decoro” e a “verosimilhança”, para que o poema fosse belo e bem construído”. Neste sentido, Horácio proporcionou a “verosimilhança” no sentido de que a poesia deveria provocar no fruidor a sensação de realidade e, para o “decoro”, Horácio usou para traduzir o “adequado” e ou “apropriado” – isto seria o mesmo que ajustar a sua obra ao público, fornecendo os [possíveis] vínculos emocionais entre os fruidores e a obra poética, (Regino, 2011). Enquanto conversávamos, Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas apresentava o que na linguagem de Aguiar e Silva poderia se sentir como enraizamento na relação e no aprofundamento do próprio “eu”, na imposição do ritmo, da tonalidade, das dimensões, enfim, desse mesmo “eu”, a toda realidade. Por isso, os poemas elisianos apresentam esse lirismo, revelando as emoções de um eu-lírico que representa, assim, a voz que se expressa no poema e tanto que notamos a apresentação dos sentimentos do “eu-lírico”. Elísio Miambo, através do seu prefácio convida-nos a voltar aos poetas ligados ao Simbolismo, estilo de época de fins do Século XIX, integrando, assim a visão de Nahia e Dias (2023) sobre a referenciação do chamado poema em prosa. Os poemas elisianos denotam os elementos poéticos a partir de “poemas definíveis por seu tema ou tom”. Este exercício conduz-nos a recuperar certas propriedades literárias e através desta indagação “será que vale o esforço?”, tomamos a “literariedade” – um termo que se atribuiu à Literatura através das características que o tomam como “ texto literário”. Todavia, a nossa percepção sobre a literariedade extrapola a ideia inicial que considera a literariedade estar apenas no texto porque na verdade, os mais radicais, segundo Abreu (2007), a literariedade não está nunca no texto – e sim na maneira como ele é lido. Neste caso, vale o esforço, pois os poemas elisianos ganham sentidos distintos de acordo com aquilo que se imagina que eles sejam.

A nossa análise começa com o poema “Muedas”. Primordialmente, ressaltamos que o auge dos poemas de Elísio Miambo no seu livro intitulado “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” reveste-se, como anteriormente afirmado, de “poemas definíveis por seu tema ou tom”. O poema “Muedas” mergulha em um turbilhão de emoções e memórias, explorando a fragilidade da alma, a dor da perda e a busca por reconciliação com um passado marcado por amor e sofrimento. Elísio Miambo, escritor e jovem moçambicano, docente na UniSave, explora esses temas em seus poemas de forma recorrente, o autor encontra uma forma de dar vida às palavras através do seu foco lírico. Elísio Miambo, através de uma linguagem poética carregada de imagens e simbolismos, transporta-nos para Mueda, local que se torna palco de um drama pessoal e, ao mesmo tempo, de uma profunda reflexão sobre a experiência moçambicana, isto porque a nossa história não é assim tão leve de contar. O poema começa por reticências, o que postulamos existir uma história que se reveste de elegia, de sentimento melancólico, pois isso, denota: “…é 1960”. Salvo pelos registos, Elísio Miambo usa esta data simbólica para nos fazer reflectir sobre o Massacre de Mueda que aconteceu durante uma reunião pacífica do movimento pré-independência de Moçambique e, como podemos perceber, o eu-lírico encontra em sua linguagem, aspectos imagéticos para representar esse sentimento penoso. O poema “Muedas” estrutura-se em versos livres, com uma linguagem rica em imagens, metáforas e figuras de linguagem, como a personificação e a metonímica. A voz poética se expressa com intensidade e fragilidade, revelando um estado emocional profundo de dor e saudade. A repetição de “Mueda” ao longo do poema, como um mantra, reforça a importância desse lugar na memória de eu-lírico. Por isso, o poema, gira em torno da perda de um amor, com o eu-lírico buscando reconstruir fragmentos de um passado que o marcou profundamente. As imagens de “pedaços da alma”, “retalhos sentimento” e “estilhaços da voz” evocam a fragmentação da alma e a impossibilidade de recuperar o amor perdido. 

Podemos entender que a cidade de Mueda torna-se um símbolo da memória, do passado e da dor. O eu-lírico sente-se preso a essa lembrança, a qual ele tenta exorcizar mas que parece estar profundamente entranhada em sua alma. O poema ainda demonstra a busca do eu-lírico por uma reconciliação com o passado e a libertação da dor que o assombra. O encontro com o “street kid” e a compaixão que ele sente, representam um passo em direcção à cura e ao perdão. “Pedaços da alma…estilhaços da voz”: a metáfora da fragmentação da alma, do sentimento e da voz, representa a profunda dor da perda e o impacto que ela teve sobre o eu-lírico. “Guitarra que se enfurece…Swing do jazz”: a imagem da guitarra que se enfurece em um swing de jazz, evoca a intensidade do amor e da paixão, que agora se transforma em sofrimento. “Broa…Eternidade”: a broa simboliza o alimento do amor e a promessa de um futuro eterno, que foi quebrada. “Gato preto…Street Kid”: o gato preto representa a melancolia e a solidão, enquanto o street kid simboliza a fragilidade da vida e a necessidade de compaixão. “Mueda…passe ante a patrulha”: a moeda que o eu-lírico entrega ao street kig representa um acto de compaixão, mas também a fragilidade da vida e o poder opressivo da patrulha. Este poema “Mueda”, deixa uma experiência de Mueda, com suas implicações pessoais e sociais, representa um reflexo do passado do país (Moçambique) e das marcas que a guerra deixou na alma do povo. Por esse motivo, Elísio Miambo convida-nos a reflectir sobre a fragilidade da alma, a dor da perda, a busca pela reconciliação com o passado e a importância da compaixão humana. Através de uma linguagem poética rica e imagens poderosas, o poema nos convida a olhar para a experiencia moçambicana com sensibilidade e profundidade, revelando a forca da memória, a importância da busca por cura e a esperança de um futuro mais humanizado. 

O segundo texto a ser analisado é o intitulado “To whom do you belong?”. O poema apresentado é uma profunda reflexão sobre o amor, a distância, a esperança e a desilusão, tudo permeado por uma crítica social e política afiada, características marcantes da literatura moçambicana contemporânea. Através de uma linguagem poética e imagens vividas, o poema tece um relato sobre um amor à distância, permeado por uma constante expectativa e pela promessa nunca realizada de um reencontro (“one day you will be mine”). O poema em análise é estruturado em versos livros, com rimas esparsas e uma linguagem coloquial, próxima da oralidade moçambicana. Essa escolha confere um tom informal e íntimo à obra, aproximando o leitor da voz do eu-lírico, que se expressa com naturalidade e autenticidade. A presença de gírias e expressões populares, como “cágado”, “gajos”, “em pleno garimpo”, entre outras, realçam a identidade cultural moçambicana do poema e contribui para a sua originalidade. O tema central do poema gira em torno do amor à distancia, evidenciado pelo verso “Penso em ti e na distancia que nos divide”. O eu-lírico anseia pela presença do seu amado, que se encontra distante, expressando a dor da separação e a esperança de um futuro encontro. O eu-lírico nutre a esperança de que um dia estará junto ao seu amado (“One day you will be mine”), mas essa esperança é constantemente frustrada (“E o tal day nunca chega”). A promessa de um futuro feliz é repetida (“ressona again, again and again”), mas a realização desse sonho se torna cada vez mais improvável, devido a obstáculos que o eu-lírico não revela no poema. Ainda constatamos que o poema transcende o tema amoroso e conecta-se com a realidade social e política de moçambicana. A referência à “vaca leiteira da Silicon Valley” e aos “filhos de hoje, em pleno garimpo”, evoca o cenário da exploração económica e as desigualdades sociais, denunciando a busca por riqueza e poder que domina a sociedade. A menção à morte de Samora (“as do dia em que mataram Samora”) remete para o período de instabilidade política e violência que marcou a história de Moçambique, mostrando como esses traumas ainda persistem na memória colectiva. Assim como no primeiro, neste poema também, Miambo goza de imagens e símbolos para representar a sua expressão literária: “Algas florescem…Lagoa sem água” a imagem das algas que florescem, mas que serão destruídas pela falta de água, simboliza a fragilidade da esperança e a efemeridade da felicidade: “Breaking news…Vaca leiteira da Silicon Valley”: essa referência aos “breaking news” e à metáfora da “vaca leiteira” representa a constante busca por informações e novidades, a influência da cultura globalizada, mas também a exploração e a busca por lucro que caracterizam o mundo contemporâneo. “Gajos bons em todo lado…Berlim Fevereiro de 85”: a ideia de “gajos bons em todo lado” sugere a crença na bondade humana, mas a lembrança de Berlim em 1985, um período de tensões políticas e guerra fria, levanta dúvidas sobre a permanência da bondade em um mundo marcado por conflitos. Neste poema em análise podemos perceber que se representa uma complexa teia de temas que se entrecruzam, explorando o amor à distância, a esperança e a desilusão, a crítica social e política, a hibridização cultural e a memória do passado. Neste poema, o eu-lírico coloca-se como um observador atento da realidade, buscando respostas para as questões existenciais e sociais que o cercam, utilizando uma linguagem poética rica e original. Através da sua obra, podemos compreender as características da literatura moçambicana contemporânea, marcada por um compromisso com a realidade social, a busca por novas formas de expressão e a valorização da identidade cultural.   

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