A vida pertinente
A simpatia dos amores
Que encanto reside no ar,
Quando os olhos se encontram
E, sem que palavra se diga, as almas se aprontam?
É um fio de luz invisível,
Um aceno discreto,
A finalidade que surge, sem pedir qualquer
Decreto.
Não é forca que impele,
Nem razão que comanda,
Mas um jeito que agrada, uma graça que abranda.
Um sorriso espelhado,
Um gesto que convida,
A conversa que flui, tao leve e
Comprida.
Há um quê de magia nesse laco
Que se tece, uma súbita alegria,
Que a alma reconhece. Como o sol de manhã
Que beija a flor em botão,
A simpatia desperta, no jardim
Do coração…
São corações em sintonia,
Num compasso sereno,
Um bem-querer que floresce, puro, ameno.
Oh, simpatia dos amores,
Que nos faz suspirar, a mais doce melodia
Que a vida pode nos dar.
Um bálsamo gentil,
Um convite a sonhar…
A dor dos amores perdidos
No crepúsculo da memória,
Onde a luz se esvai devagar,
Residem os fantasmas doces dos amores
Que o tempo ousou levar. Não há pranto ruidoso,
Nem a fúria da perda recente,
Apenas um véu cinzento, um suspiro dormente.
Cada rosto, uma aquarela desbotada pela chuva
Dos anos, cada promessa, um eco perdido
Entre desenganos.
São cancões que não tocam mais,
Mas cuja melodia insiste,
Num tom menor, persistente, na alma
Que ainda resiste.
Lembro-me de mãos que um dia
Buscaram as minhas com ardor, e de olhos
Que espelhavam um futuro cheio de cor.
Hoje, são estrelas distantes,
Brilho pálido no céu do meu peito,
Fragmentos de um vitral quebrado,
Sem conserto, sem jeito.
O Outono da existência traz consigo esta névoa
Sútil,
O perfume das filhas caídas,
De um afecto que foi juvenil.
Não é tristeza amarga, mas um langor
Que me veste,
Como um manto de saudades
Do que a vida não me deu ou me reste.
E neste jardim de ausências,
Onde o silêncio é flor,
Caminho entre as lembranças,
Colhendo a melancolia do amor
Que se foi, como um barco que some
No horizonte marinho, deixando apenas
A brisa fria e o sentimento de estar
Sozinho…
Com a beleza pungente do que
Um dia me fez encontrar,
E que agora,
Em suave tristeza,
Aprendo a recordar.
Nostalgia
Ah, esta palavra que mora no peito,
Hóspede agridoce,
Cancão que a alma entoa em surdina.
Nostalgia!
Um eco teu que ficou em mim,
A tua ausência que se faz
Presente em cada canto da memória,
Em cada silêncio que grita teu nome,
Silêncio, silêncio,
É o sol da manhã que parece menos
Cintilante sem o teu sorriso
Para acendê-lo por completo.
É a melodia que toca e, de repente,
Traz à tona o perfume exacto da tua pele,
O jeito manso do teu olhar
Que me despia a alma.
O café esfria na xícara, esquecido,
Enquanto a mente viaja para aqueles dias
Em que o tempo era nosso cúmplice,
E cada segundo ao teu lado,
Valia uma eternidade. Sinto-a no vazio
Que a tua mão deixou na minha,
No espaço ao lado da cama que parece vasto
E gelado como um deserto.
É a risada que falta para completar a minha,
A voz que o vento não me traz mais,
Apenas sussurros de lembranças.
As estrelas parecem mais distantes,
O luar mais pálido, como se o universo também
Sentisse o peso desta distância que nos separa.
Mas há uma beleza estranha nesta dor,
Uma prova viva do quanto foi real,
Do quanto significou.
Cada pontada de saúde é um tributo ao amor
Que floresceu,
Um lembrete da felicidade
Que um dia nos aqueceu. E nesta espera,
Neste anseio, alimento a esperança
Tímida de um reencontro,
Ou me conformo em carregar-te assim,
Como a mais preciosa e melancólica jóia,
Guardada no relicário do coração.
Saudades, APENAS saudades,
A tua mais indelével marca
Em mim.
Manifesto do Akai ito
Ah, o sussurro antigo que ecoa nas almas
Antes mesmo de se encontrarem.
Uma cor invisível, tecida no tear os deuses,
Um carmesim que pulsa sob a pele,
Imperceptível ao olhar comum,
Mas sentido como uma cancão silenciosa
No mais íntimo do ser.
Não é sorte vã, quando dois olhares se cruzam e,
Num instante que se eterniza,
Reconhecem no outro a melodia que faltava à própria
Existência.
Esse fio, que não se vê, dança com o vento dos destinos,
Atravessa montanhas
De desencontros e oceanos de tempo.
Pode esticar-se até quase
Romper a esperança, pode emaranhar-se
Nas voltas que a vida insiste em dar,
Mas sua essência permanece,
Indestrutível, um farol a guiar
Os corações desgarrados de volta
Um ao outro.
Sente-se no arrepio que
Percorre a espinha ao simples toque,
Na certeza inexplicável que floresce no peito
Quando a presença do outro é abrigo.
É o conforto de um lar que nunca se conheceu,
Mas que sempre se esperou.
As mãos se buscam como se guardassem
A memória de um encaixe perfeito,
Os espíritos se entrelaçam numa dança que
Começou eras antes do primeiro OLÁ!



maio 23, 2025
Lacuna - 21