A vida pertinente

Num sopro fugaz, a centelha que dança
E nos ascende,
Um universo contido em cada instante
Que a alma apreende.
Não é mero acaso, nem sorte ao léu
Lancada à brisa,
Mas milagre que pulsa, cancão que se eterniza,
Força indomável que ruge,
Mesmo na mais tenra semente.
É o dom mais sagrado, o fio vibrante, incandescente!
Então ergue a fronte,
Respira este ar que te invade profundo,
Pois cada batida é um grito,
Ecoando pelo mundo.
Nesta tela efémera, és tinta, és traço, és a cor
Mais vital, não desperdices a chance,
Com a ternura do amanhecer,
Pois esta vida,
Esta única vida,
É tudo o que tens para ser!


A simpatia dos amores

Que encanto reside no ar,

Quando os olhos se encontram

E, sem que palavra se diga, as almas se aprontam?

É um fio de luz invisível,

Um aceno discreto,

A finalidade que surge, sem pedir qualquer

Decreto.

Não é forca que impele,

Nem razão que comanda,

Mas um jeito que agrada, uma graça que abranda.

Um sorriso espelhado,

Um gesto que convida,

A conversa que flui, tao leve e

Comprida. 


Há um quê de magia nesse laco

Que se tece, uma súbita alegria,

Que a alma reconhece. Como o sol de manhã

Que beija a flor em botão,

A simpatia desperta, no jardim

Do coração…

São corações em sintonia,

Num compasso sereno,

Um bem-querer que floresce, puro, ameno.

Oh, simpatia dos amores,

Que nos faz suspirar, a mais doce melodia

Que a vida pode nos dar.

Um bálsamo gentil,

Um convite a sonhar…


A dor dos amores perdidos

No crepúsculo da memória,

Onde a luz se esvai devagar,

Residem os fantasmas doces dos amores

Que o tempo ousou levar. Não há pranto ruidoso,

Nem a fúria da perda recente,

Apenas um véu cinzento, um suspiro dormente.

Cada rosto, uma aquarela desbotada pela chuva

Dos anos, cada promessa, um eco perdido

Entre desenganos.

São cancões que não tocam mais,

Mas cuja melodia insiste,

Num tom menor, persistente, na alma

Que ainda resiste.


Lembro-me de mãos que um dia

Buscaram as minhas com ardor, e de olhos

Que espelhavam um futuro cheio de cor.

Hoje, são estrelas distantes,

Brilho pálido no céu do meu peito,

Fragmentos de um vitral quebrado,

Sem conserto, sem jeito.

O Outono da existência traz consigo esta névoa

Sútil,

O perfume das filhas caídas,

De um afecto que foi juvenil.

Não é tristeza amarga, mas um langor 

Que me veste,

Como um manto de saudades

Do que a vida não me deu ou me reste.

E neste jardim de ausências,

Onde o silêncio é flor,

Caminho entre as lembranças,

Colhendo a melancolia do amor

Que se foi, como um barco que some

No horizonte marinho, deixando apenas

A brisa fria e o sentimento de estar

Sozinho…

Com a beleza pungente do que

Um dia me fez encontrar,

E que agora,

Em suave tristeza,

Aprendo a recordar.


Nostalgia

Ah, esta palavra que mora no peito,

Hóspede agridoce,

Cancão que a alma entoa em surdina.

Nostalgia!

Um eco teu que ficou em mim,

A tua ausência que se faz

Presente em cada canto da memória,

Em cada silêncio que grita teu nome,

Silêncio, silêncio,

É o sol da manhã que parece menos

Cintilante sem o teu sorriso

Para acendê-lo por completo.

É a melodia que toca e, de repente,

Traz à tona o perfume exacto da tua pele,

O jeito manso do teu olhar

Que me despia a alma.

O café esfria na xícara, esquecido,

Enquanto a mente viaja para aqueles dias

Em que o tempo era nosso cúmplice,

E cada segundo ao teu lado,

Valia uma eternidade. Sinto-a no vazio

Que a tua mão deixou na minha,

No espaço ao lado da cama que parece vasto

E gelado como um deserto.

É a risada que falta para completar a minha,

A voz que o vento não me traz mais,

Apenas sussurros de lembranças.

As estrelas parecem mais distantes,

O luar mais pálido, como se o universo também

Sentisse o peso desta distância que nos separa.

Mas há uma beleza estranha nesta dor,

Uma prova viva do quanto foi real,

Do quanto significou.

Cada pontada de saúde é um tributo ao amor

Que floresceu,

Um lembrete da felicidade

Que um dia nos aqueceu. E nesta espera,

Neste anseio, alimento a esperança

Tímida de um reencontro,

Ou me conformo em carregar-te assim,

Como a mais preciosa e melancólica jóia,

Guardada no relicário do coração.

Saudades, APENAS saudades, 

A tua mais indelével marca

Em mim.


Manifesto do Akai ito

Ah, o sussurro antigo que ecoa nas almas

Antes mesmo de se encontrarem.

Uma cor invisível, tecida no tear os deuses,

Um carmesim que pulsa sob a pele,

Imperceptível ao olhar comum,

Mas sentido como uma cancão silenciosa

No mais íntimo do ser.

Não é sorte vã, quando dois olhares se cruzam e,

Num instante que se eterniza,

Reconhecem no outro a melodia que faltava à própria 

Existência.

Esse fio, que não se vê, dança com o vento dos destinos,

Atravessa montanhas

De desencontros e oceanos de tempo.

Pode esticar-se até quase

Romper a esperança, pode emaranhar-se

Nas voltas que a vida insiste em dar,

Mas sua essência permanece,

Indestrutível, um farol a guiar

Os corações desgarrados de volta

Um ao outro.


Sente-se no arrepio que

Percorre a espinha ao simples toque,

Na certeza inexplicável que floresce no peito

Quando a presença do outro é abrigo.

É o conforto de um lar que nunca se conheceu,

Mas que sempre se esperou.

As mãos se buscam como se guardassem 

A memória de um encaixe perfeito,

Os espíritos se entrelaçam numa dança que

Começou eras antes do primeiro OLÁ!


 
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