No crepúsculo da memória,
Onde a luz se esvai devagar,
Residem os fantasmas doces dos amores
Que o tempo ousou levar. Não há pranto ruidoso,
Nem a fúria da perda recente,
Apenas um véu cinzento, um suspiro dormente.
Cada rosto, uma aquarela desbotada pela chuva
Dos anos, cada promessa, um eco perdido
Entre desenganos.
São cancões que não tocam mais,
Mas cuja melodia insiste,
Num tom menor, persistente, na alma
Que ainda resiste.
Lembro-me de mãos que um dia
Buscaram as minhas com ardor, e de olhos
Que espelhavam um futuro cheio de cor.
Hoje, são estrelas distantes,
Brilho pálido no céu do meu peito,
Fragmentos de um vitral quebrado,
Sem conserto, sem jeito.
O Outono da existência traz consigo esta névoa
Sútil,
O perfume das filhas caídas,
De um afecto que foi juvenil.
Não é tristeza amarga, mas um langor
Que me veste,
Como um manto de saudades
Do que a vida não me deu ou me reste.
E neste jardim de ausências,
Onde o silêncio é flor,
Caminho entre as lembranças,
Colhendo a melancolia do amor
Que se foi, como um barco que some
No horizonte marinho, deixando apenas
A brisa fria e o sentimento de estar
Sozinho…
Com a beleza pungente do que
Um dia me fez encontrar,
E que agora,
Em suave tristeza,
Aprendo a recordar.



maio 23, 2025
Lacuna - 21
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