A dor dos amores perdidos

No crepúsculo da memória,

Onde a luz se esvai devagar,

Residem os fantasmas doces dos amores

Que o tempo ousou levar. Não há pranto ruidoso,

Nem a fúria da perda recente,

Apenas um véu cinzento, um suspiro dormente.

Cada rosto, uma aquarela desbotada pela chuva

Dos anos, cada promessa, um eco perdido

Entre desenganos.

São cancões que não tocam mais,

Mas cuja melodia insiste,

Num tom menor, persistente, na alma

Que ainda resiste.


Lembro-me de mãos que um dia

Buscaram as minhas com ardor, e de olhos

Que espelhavam um futuro cheio de cor.

Hoje, são estrelas distantes,

Brilho pálido no céu do meu peito,

Fragmentos de um vitral quebrado,

Sem conserto, sem jeito.

O Outono da existência traz consigo esta névoa

Sútil,

O perfume das filhas caídas,

De um afecto que foi juvenil.

Não é tristeza amarga, mas um langor 

Que me veste,

Como um manto de saudades

Do que a vida não me deu ou me reste.

E neste jardim de ausências,

Onde o silêncio é flor,

Caminho entre as lembranças,

Colhendo a melancolia do amor

Que se foi, como um barco que some

No horizonte marinho, deixando apenas

A brisa fria e o sentimento de estar

Sozinho…

Com a beleza pungente do que

Um dia me fez encontrar,

E que agora,

Em suave tristeza,

Aprendo a recordar.


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