"Precisamos de Mudar a Nossa Forma de Entender o Mundo, Urgentemente"

Mateus 24:7-8 (e se for)?

Precisamos de decidir o nosso futuro!
Acredito de que precisamos reconstituir esta casa chamada Moçambique. Um lar que abriga muitos, mas onde poucos realmente vivem. Triste, mas essa é a realidade, não é mesmo?

Em minhas reflexões olhei para Voltaire dizendo: "tudo o que você diz deve ser verdade, mas nem tudo que é verdade deve ser dito". Olhe, Voltaire presenteou o mundo com um paradoxo. Ninguém vai entender qual seria a verdade falada e a verdade que deve permanecer oculta. Digo, lar de todos, os seus filhos transformados em vagabundos, caminhando em direcção à vagabundagem sem retorno, tornar-se-ão marginais, prostitutos, vingativos e egoístas. Sua vagabundagem é referida por Mudungazi. Nossa! Penosa esta nação vagabunda, o pior, experimenta a vagabundagem sem ao menos notar. Acredito. Seremos escrotos e sem dignidade para a geração vindoura. Então, lar de todos: se não for pela dor, que seja pela preocupação; se isso também não for suficiente, que seja pelo reconhecimento do seu próprio lado. Creio, é importante reflectir os contextos actuais do nosso Moçambique. Aliás, como proponente e aspirante a causas pacificamente estabelecidas, valorizo, principalmente, as palavras da Noémia de Souza. Não a vejo apenas como autora dos movimentos nacionalistas em Moçambique,  mas como alguém cujo percurso merece ser analisado à luz da causa moçambicana, refectindo tudo o que essa nova geração pode vir a chorar...

Vamos?

Sabes! Chegamos a um momento em que as sagradas escrituras parecem não ter mais impacto. Pergunto-me: onde vamos com isso? Existe uma terra prometida para nós? Somente meu bom Deus poderia fornecer as respostas exactas sobre este fenómeno que parece particular, porém mundial. Lá se vão Americanos e Asiáticos. 

Em termos iguais, lutaram Eduardo Mondlane e Samora Machel mas, hoje, o nosso lar se tornou palco daqueles que não entenderam a necessidade da luta pela libertação nacional. Lembro-me do dia em que tudo poderia ter sido evitado; entretanto, todos se pronunciaram com fervor para trilhar caminhos sem volta. Hoje, choramos não porque somos covardes, mas porque nos falta esperança. Se possível,  olhe para o que está escrito...

Guerras que assolam o mundo têm um impacto devastador no progresso e crescimento da humanidade. Elas não apenas destroem vidas, mas também desestabilizam sociedades e arruinam o potencial de desenvolvimento. Em Tiago 4:1-2, encontramos uma reflexão profunda sobre as causas dos conflitos: "De onde vêm as guerras e contendas que há entre vós? Não vêm das vossas paixões, que combatem nos vossos membros? Cobiçais, e nada tendes; matais e invejas, e não podeis alcançar; combatis e guerreais". Essa mensagem lembra-nos que a ambição desmedida e o egoísmo são raízes dos conflitos, impedindo a construção de um futuro harmonioso. Falando nisso, lá se foi a 1ª, a 2ª e a 3ª, agora, percorremos a 4ª com objectivos desumanos e que foco a paralisação total da economia que, amanhã, poderia fazer diferença ao meu preto carvão. Acrescento, Elon Musk já se fez sentir e continua se sentindo, o que esperamos?

Em Moçambique, é urgente que aprendamos a viver em sintonia, unindo-nos em causas justas. A diversidade do nosso povo deve ser uma fonte de força e não de divisão.  Em Efésios 4:3, somos exortados a "procurar guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz". Nessa busca pela paz, precisamos cultivar o diálogo e a compreensão mútua, reconhecendo que nossas diferenças podem ser uma riqueza cultural e espiritual. Olhe, Severino Ngoenha, enquanto eu clamava e gritava para ser ouvido por todos, a mim disse: "...em campanhas, não simplesmente de vigilância, mas de procura de uma paz verdadeira, organizando-se em pequenos grupos, em pequenas comunidades para que o nosso país, o diálogo,  a paz, a transparência sejam uma realidade constante". 

Neste ponto, Severino Ngoenha demonstra e livra-me dos maus pensamentos porque isto que acontece ao nosso redor, não é o adequado no contexto em que se grita: país pobre do mundo. Neste caso, a reflexão a respeito do amor ao próximo é fundamental neste contexto. Em Mateus 22:39, Jesus nos ensina: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Este mandamento não é apenas um ideal; é um chamado à acção.  O amor ao próximo nos impulsiona a cuidar dos outros, a lutar por justiça e igualdade,  e a construir uma sociedade onde todos tenham oportunidades para prosperar. Quando praticamos o amor ao próximo, transformamos nossas comunidades em lugares de acolhimento e solidariedade.  Portanto, ao reflectirmos os efeitos das guerras no mundo e a necessidade de viver em harmonia em Moçambique,  devemos lembrar que o amor é a chave para superar divisões e promover um futuro melhor para todos. Que possamos nos inspirar nas palavras Bíblicas para agir com compaixão e buscar sempre a paz.

As manifestações são um direito cívico,  porém, tornar-se-ão marginais se não agirmos dentro dos parâmetros estabelecidos. Sejamos capazes de recuperar Moçambique através do diálogo. 

A um poeta de sul

A nossa existência transcorre em trajectórias assimétricas, onde o elefante já não possui mais envergadura superior à de um morcego. Onde o vencimento assume primazia sobre a saúde pública. Onde o lamento de um desfavorecido se converte em um meme para os demais. Onde a suplicação e a cumplicidade se transformaram em um silêncio selectivo. Onde a saudação provoca inveja nos olhares alheios. Onde a redenção carece de relevância no seio da comunidade. Onde a aceitação do próximo se dá, predominantemente, por meio de realizações concretas. Onde apenas no dia do funeral nos dignamos a expressar opiniões favoráveis. Onde não há distinção entre mais e menos em sociedade tão distanciada. Onde cada indivíduo olha por si mesmo, enquanto Deus cuida de todos. Onde a palavra do Santo Esplendor é invocada apenas para satisfazer interesses egoístas sem consideração pela humanidade, mas sim com atitudes desumanas.

Onde até os animais selvagens sabem aproveitar, respeitar, sonhar, criar, manter esperança e fé em um ser humano que só pensa em receber, alimentar-se, saciar a sua sede e dormir. Onde a caça é praticada apenas por aqueles que buscam enriquecer à custa dos menos afortunados. Onde a riqueza se torna o símbolo mais sacrossanto para seus possuidores. Onde a honestidade é motivo de escárnio e piadas por parte daqueles que estão em nossa proximidade. 

Onde o bem compartilha a mesa com o mal. Onde o correcto perde seu significado quando se acredita no equivocado. Onde o gesto mais puro e consciente é ser presenteado por um amigo com uma cerveja e alguns cigarros. Onde a falsidade nas amizades é algo que se verifica com maior frequência em tempos como estes. Onde a sabedoria é deliberadamente confundida com o conhecimento. Onde o maior prazer de todo ser humano é estar à frente de alguém, sem se preocupar com as consequências.

Onde tudo são meras conjecturas. Onde cada indivíduo se considera superior aos demais. Porém, a consciência clama: - Basta, Basta, Basta, Basta e basta!

Os Poemas falam, porém poucos conseguem entender

Em nossa experiência, os poemas têm muito a dizer, de algum modo, são iguais àqueles indivíduos que não falam muito. Acreditamos que em todas as partes do mundo, existe um poema que revela todas as facetas, por isso, pensamos: será que podemos ver como isso se manifesta? Perante essa indagação, vimos ser importante trazer uma reflexão – “Os poemas falam para todos, porém poucos conseguem entender”. Deste modo, a conveniência em se aprofundar este assunto, surge numa necessidade de se querer compreender, como é que a leitura pode condicionar uma habilidade fundamental no processo de aprendizagem e desenvolvimento das capacidades interpretativas dos alunos através da análise de diferentes géneros literários. Mediante o pressuposto, pode ser possível oferecer aos alunos experiências diversificadas de leitura, que não só estimulam a compreensão textual, mas também promovem o desenvolvimento do pensamento crítico. Neste sentido, ao focar nos poemas é provável adentrar em um universo poético que desafia a percepção tradicional da linguagem e convida os alunos a explorar novas formas de expressão e significado. Os poemas muitas vezes encapsulam em poucas palavras uma complexidade de emoções, imagens e ideias incentivando os alunos a mergulhar em múltiplas camadas de interpretação, por isso, a importância da análise dos géneros literários, em especial dos poemas, na construção das habilidades de leitura, pode ser fundamental para enriquecer a experiência educacional. Olhe, o poema continua falando em quase todos os pontos literários, isso significa que esses significados não estão escritos explicitamente, mas podem ser inferidos ou deduzidos através da análise do texto, por outras, há um significado maior do que a mera leitura do texto revela, e que exige uma aprofundada, ou uma leitura submersa. Essa leitura permite encontrar ou desenvolver um significado adicional ao texto e também dá aos alunos uma nova percepção do texto, neste sentido, como uma possível pergunta de partida, observou-se a seguinte:

    De que modo os paradigmas submersos aos poemas podem ser utensílios para a construção de habilidades de leitura sob ponto de vista dos géneros literários?

Contexto Histórico dos Géneros Literários

As literaturas aqui apresentadas, mostram que o filósofo Aristóteles foi um dos primeiros a pensar a respeito dos géneros literários, elencando diferenças e hierarquias entre as diversas maneiras de expressão literária da Grécia Antiga. Em consonância com Regino (2021), a história da teoria dos géneros literários pode ser divida em três etapa: 

A primeira começa no período clássico, com Platão e Aristóteles, por volta do século V a.C., e termina no período neoclássico francês, no século XVIII;

A segunda, se desenvolve desde as primeiras manifestações do romantismo, até o final do século XIX;

A terceira se inicia com os novos teóricos do começo do século XX, chegando até aos dias de hoje.

Aguiar e Silva (1969, cit. em Regino, 2021), observa que o primeiro a abordar a questão dos géneros foi Platão, a partir do conceito de mímesis, ou representação. No terceiro livro de A República (2000), Platão divide a poesia em: poesia mimética ou dramática; poesia não mimética ou lírica; poesia mista ou épica. Essa é a primeira referência teórica ao problema dos géneros literários encontrada em textos da Literatura Ocidental. Segundo este aspecto, podemos observar, Platão classifica a poesia segundo a mímesis, ou seja, de acordo com a forma de representação. Por outro momento, Platão passa a considerar toda a poesia (dramática, lírica e épica) como poesia mimética. Isso significa, de acordo com Aguiar e Silva (1969), que a estética platónica parece se orientar para a “abolição dos géneros literários”. No entanto, ao valorizar a universalidade, a unicidade da arte, Platão deixa de considerar sua multiplicidade e diversidade, (p.204).

Na visão de Aguiar e Silva (1969), Aristóteles foi o primeiro filosofo a reflectir profundamente sobre os géneros literários. A obra aristotélica adopta o termo “espécies” para traduzir “genos”, o que podemos ver a partir do trecho inicial da Poética. Em seu trecho, Aristóteles anuncia que irá, segundo a tradução apresentada por Eudoro de Souza, procura falar sobre poesia, especificamente as suas diferentes espécies (géneros) e os efeitos de cada uma dessas espécies de poesia sobre o receptor. Também se propõe a discorrer sobre a forma de compor um texto literário, para que seja criada uma bela obra, estabelecendo, portanto, normas formais e estéticas. Por fim, Aristóteles afirma a sua intenção de apresentar cada um dos elementos que caracterizam as diferentes espécies de poesia, (Regino, 2021, p.36).

Meios de Representação

Segundo Regino (2021), Aristóteles afirma que, as diferentes artes (pintura, escultura, música e poesia) realizam a representação com o uso de diferentes meios:

 a.  A pintura se diferencia da música por utilizar a cor, as manchas e os traços como meio de representação;

b.     A música utiliza o ritmo e a harmonia;

c.    O meio de representação da poesia, segundo Aristóteles, é o “metro”, que marca o ritmo da fala do poeta e caracteriza o uso poético da palavra, (Regino, 2021, p.37)

Objecto de Representação

Aristóteles afirma que a mímesis dragamatica (apreciada nas representações teatrais) tem como objecto as acções dos homens. Essas acções são manifestadas pelos actos, os objectos da representação. Foi a partir dessa designação que Aristóteles propôs a diferenciação da Tragédia e a Comédia, (Regino, 2021, p.37).

Modos de Representação

Na visão de Regino (2021), Aristóteles distingue dois modos de representação poética: “o modo narrativo e o dramático”.

a.      O modo de representação é a maneira como o poeta representa os seus objectos, ao usar como meio de expressão a arte poética.

b.     O modo da poesia épica é o narrativo, pois o texto épico narra histórias de deusas e heróis.

c.      O modo dramático, o actor “apresenta”, (p.38).

Classificação dos Géneros Literários: “Tema e a Forma”

Tema: após estabelecer diferenças entre a tragédia e comédia, Aristóteles considera o tema, o assunto do drama, isto é, a tragédia representa as acções de heróis e homens nobres, a comédia representa as acções de homens não nobres.

Forma: ao diferenciar o processo narrativo do processo dramático, Aristóteles considera a forma, (Regino, 2021, p.38).

Aguiar e Silva (1969), afirma que, três séculos e meio depois de Aristóteles, o poeta Horácio, em sua Epístola aos Pisones. Afirmou: “os géneros poéticos se distinguiam por meio dos diferentes metros usados pelos poetas e pelas diferenças de tons”. Neste sentido, Horácio, concebe o género literário como correspondendo a uma certa tradição formal, (p. 206). Quando Horácio (Aristóteles, Horácio e Longino, 1997), afirma que as acções “ou se representam em cena ou se narram”, está distinguindo os géneros como “dramático” e “não dramáticos”. Neste aspecto, Horácio recomenda aos jovens poetas o respeito aos modelos gregos e a busca do equilíbrio entre as partes do poema, observando-se o “decoro” e a “verosimilhança”, para que o poema fosse belo e bem construído. A verosimilhança, hoje, é a impressão da verdade que os textos de ficção provocam no leitor. Acrescenta Regino (2021) que, um texto verosímil não é aquele que é verdadeiro, mas aquele que parece ser verdade ao leitor ou espectador, mesmo quando apresenta uma trama fantástica, (p.40).

No século XVI (Renascimento) e no século XVII (Classicismo francês). As poéticas da Antiguidade clássica, especialmente as de Aristóteles e de Horácio, deram origem a grande número de novas poéticas. Os poetas da Renascença abandonaram a bipartição de Aristóteles e Horácio, que em suas poéticas consideravam apenas a: “poesia dramática e a poesia narrativa”. Sob a perspectiva dos séculos XVI e XVII, a classificação dos géneros foi feita da seguinte forma: “Poesia Dramática, Poesia Lírica e a Poesia Épica”. Nestas circunstâncias, Cunha (1979) afirma que, a divisão tripartida dos géneros somente passa a ser considerada no Renascimento, quando “com base nos postulados horacianos, críticas renascentistas e clássicos incluíram (o lírico) entre os géneros, divisão que prevalece para grande parte dos teorizadores até nos nossos dias, (p.94). De acordo com Aguiar e Silva (1969), no classicismo francês os poetas e os estudiosos da poesia imaginavam o género como uma “essência eterna, fixa e imutável, governada por regras específicas e igualmente imutáveis”. Nessa época, uma nova regra, que postulava a unidade de tom, foi acrescentada à regra das três unidades clássicas, (tempo, espaço e acção), (p.209). Segundo a regra da unidade de tom, cada género tinha seus temas próprios e estilos característicos, que não deviam ser confundidos. Havia também uma hierarquização dos géneros com uma classificação quanto ao valor e à importância de cada um deles. Surgiram os géneros maiores (de mais prestigio) e os géneros menos (de menos prestigio).

a.      Géneros maiores (A Tragédia e a Epopeia) – contavam-se histórias de reis, nobres e heróis, em espaços nobres, como em salões dos palácios.

b.     Géneros menores (Comédia e a Farsa) – a comédia - apresentada por personagens burgueses em ambiente caracteristicamente burgueses, com temas relativos a casamentos arranjados, etc. Na Farsa - apareciam elementos do povo mais simples, camponeses e servos, convivendo e actuando nas ruas, nas cavernas, em cozinhas, etc. (Regino, 2021, p.40-41).

Os poetas ligados ao classicismo defendiam a pureza dos géneros literários e não aceitavam misturas de temas, estilos e emoções conflituantes em um mesmo texto. Em meados do século XVII, muitas polémicas surgiram sobre a questão dos géneros. A mais famosa dessas polémicas foi a “Querela dos Antigos e Modernos”, que tive inicio na Academia Francesa, espalhou-se por outros países e agitou os meios artísticos europeus, especialmente da Itália, trazendo novos paradigmas para a produção literária, (Regino, 2021, p. 41).

Segundo Aguiar e Silva (1969), os poetas Antigos liderados por Nicolas (1636-1711) - defendiam a imitação dos poetas da antiguidade, pois consideravam “as obras literárias greco-latinas como modelos ideais e imutáveis. Dessa forma, negavam a possibilidade de existência de novos géneros e de novas regras para a produção poética. Os poetas “Modernos” liderados por Charles Perrault (1628-1705) – defendiam a criação de novas formas literárias, diferentes dos modelos greco-latinas, como o drama, o soneto, a saga e o conto (inclusive os tradicionais contos de fada), (p.211-212).

Surgimento do Pré-Romantismo

Os primeiros movimentos libertários deram-se através da “Querela dos Antigos e Modernos”, o que fez surgir o pré-romantismo alemão, por volta de 1760. O movimento pré-romantismo na Alemanha, chamada “Sturm und Drang”: os poetas dessa época, contestavam os modelos clássicos e as regras dos géneros literários postulando a autonomia da literatura em relação às convenções do classicismo, (Regino, 2021, p.44). Por seu turno, Aguiar e Silva (1969), afirma que, o escritor alemão Friedrich Schiller (1759-1805) afirmava que os poetas modernos deveriam criar uma poesia não apenas sentimental, mas reflexiva e satírica, ligada aos novos modelos poéticos. A partir dos primeiros anos do século XIX, o Romantismo alastrou-se pela Europa, transformando o pensamento, o comportamento e as artes. Ainda em Aguiar e Silva (1969), foi com a literatura romântica que se começou “a devassar os segredos da interioridade humana”:

a.      A subjectividade;

b.     O individualismo;

c.      A liberdade e a imaginação se sobrepuseram ao racionalismo e ao empirismo, (p.415).

De acordo com Regino (2021), com as novas ideias românticas as sensações subjectivas passam a ser mais valorizadas do que as percepções objectivas. As fortes emoções, os sentimentos mais agudos em relação à vida, tornaram-se a principal fonte de inspiração para a experiencia estética, (p.44-46).

De forma geral, é importante frisar que, o estudo dos géneros literários não tem como objectivo a prescrição de normas para a produção de textos literários, mas simplesmente um instrumental analítico e didáctico para compreender as obras literárias e seus diálogos intertextuais com a tradição e com as outras obras, sejam elas literárias ou não.

Concepções dos Géneros Literários

Segundo Soares (2007), a denominação de géneros literários, para os diferentes agrupamentos das obras literárias, fica mais clara se lembrarmos que “género” – (do latim genus-eris) – significa “tempo de nascimento, origem, classe, espécie, geração”. E o que se vem fazendo, ou ainda, é mostrar como certo tempo de nascimento e certa origem geram uma nova modalidade literária., (p.7).

Na criação narrativa existem diferentes modalidades textuais, que nas palavras de Todorov tais modalidades são “classes de texto”, isto é, géneros literários ou “codificações de propriedades discursivas” (Todorov, 1978, p.49-51) que se determinam e diferenciam por factores variáveis como a temática, a finalidade, a estrutura ou a forma. O conceito de género é, pois, teoricamente baseado “tanto na forma exterior (metro e estrutura específicos) como também na forma interior atitude, tom, finalidade – mais grosseiramente, sujeito e público” (Wellek e Warren, s/d: p.289). De acordo com Todorov “os géneros (literários) têm origem pura e simplesmente no discurso humano” (Todorov, 1978, p.62). Um novo género é sempre a transformação de um ou vários géneros antigos: por inversão, por deslocamento, por combinação (Todorov, 1978, p.48). O mesmo autor salienta ainda que os géneros existem como “instituição, funcionam como “horizonte de espero” para os leitores e como “modelos de escrita” para os autores. Através da institucionalização, os géneros comunicam com a sociedade em que aparecem” (Todorov, 1978, p.52). Portanto, enquanto codificação de discurso, relacionam-se com um “tempo”, com uma convenção histórica, com um período político, social, cultural.

Segundo Silva (2007), os géneros “vivem”, desenvolvem-se, modificam-se, desagregam-se, dão lugar a novos géneros, (p.373). Relacionada com esta corrente está a caracterização proposta por Jakobson “o género épico, centrado sobre a terceira pessoa, põe em destaque a função referencial”. O género lírico, orientado para a primeira pessoa, está vinculado estreitamente à função emotiva. O género dramático, “poesia da segunda pessoa”, apresenta como subdominante a função conotativa” (Nahia e Dias, 2023, p. 275).  

Género Lírico

Na visão de Ourique (2010), a palavra “Lírico” vem de “lira”, um instrumento musical semelhante a uma pequena harpa, tocado para acompanhar a declaração de poemas, por isso, entende o género lírico como uma manifestação do (Eu), de sentimentos pessoais (p.39). Por sua vez, Regino (2021), diz que a palavra “poesia” tem origem no termo grego “Poísis” e se relaciona ao verbo “Poiein” que significa (criar, imaginar algo). Para esse autor, o termo “poesia” pode ser compreendido como um dos produtos elaborados pelo imaginário humano. Salta ainda o mesmo autor que, o termos “lírico”, cunhado por filólogos alexandrinhos para indicar um tipo de poema breve, cantado ou declamado, acompanhado por música, deriva do nome de um antigo instrumento de cordas, a “lira”, como defende, também Ourique, (p.84). De acordo com Ourique (2010), “o conteúdo da poesia lírica não é o mundo objectivo, real, palpável, mas os sentimentos que ele provoca no leitor. O mundo subjectivo é a matéria da lírica. Mesmo que haja descrições e narrações de algum facto, se o que sobressair, numa análise final, forem as emoções e não as paisagens ou os factos, temos um texto lírico” (Ourique, 2010, p.39). Nesta mesma vertente, Aguiar e Silva (1969), afirma que a poesia lírica “enraíza-se na relação e no aprofundamento do próprio “Eu”, na imposição do ritmo, da tonalidade, das dimensões, enfim, desse mesmo eu”, a toda a realidade (p.232), por isso, a partir dessas ilustrações, podemos perceber que a poesia lírica revela as emoções de um “eu-lírico”, voz que se expressa no poema e tanto pode representar os sentimentos do poeta como os de outra pessoa, segundo (Regino, 2021, p.94).

Entendendo o Poema e os elementos poéticos

Os géneros literários, por sua vez, comportam subdivisões, geralmente chamadas espécies literárias. De acordo com Ourique (2010), as espécies líricas podem ser agrupadas em dois conjuntos:

1.     Poemas de forma fixa, isto é, dotados de um esquema estrófico, rítmico e/ou métrico especial. Entre as espécies líricas de forma fixa, cabe destacar, pela frequência da sua presença nas diversas épocas literárias, o Soneto, cujo esquema (na variante mais comum em língua portuguesa) é o seguinte: catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Além do soneto, contam-se entre as espécies líricas de forma fixa: quadrinha, balada, vilancete, rondel, rondo, triolé, terceto, oitava, sextina, canto real, vilanela, pantum, decima.

2.     Poemas definíveis por seu tema ou tom, entre os quais podem ser citados:

a.      A Elegia – poema em tom terno e triste.

b.     Ode – poema em tom grave e solene, destinado à exaltação de alguém, de um acontecimento ou de uma situação;

c.      Idílio – poema amoroso de carácter campestre ou pastoril;

d.     Écloga ou égloga – poema pastoril composto sob a forma de diálogos.

Segundo Nahia e Dias (2023), referem que, entre as espécies líricas, cabe também referência ao chamado poema em prosa, modalidade praticada entre os poetas ligados ao Simbolismo, estilo de época de fins do século XIX, (p.280).

Elementos do Texto Poético

De acordo com Garcia (2010), chama-se poética – o estudo geral da poesia, nos aspectos estéticos e filosóficos, bem como – o estudo formal dos poemas. Mediante esse pressuposto, o autor acrescenta que, quanto aos aspectos formais, temos:

a.     Versificação e a Poemática.

Como podemos entender, a partir dessa perspectiva, a poética adquiriu o sentido, particularmente com o estruturalismo, de forma que se poderia estudar a literariedade, no lugar das obras literárias.

Encontra-se quase sempre nos poemas uma recriação lírica realidade, uma criação de blocos de sensações. Portanto, entende-se por poema – qualquer composição em verso; a poesia possui um sentido mais geral. Poética significaria uma estética geral da literatura, na medida em que oposta a outras artes, (p.37)

Compreende a Poemática – parte da poética que aborda a técnica estrutural dos poemas, particularmente os tipos da composição poética produzidos através da história nas literaturas de várias línguas. Num certo sentido, o poema, como uma composição escrita, é a materialização da poesia, por via disso, afirma Garcia que são infinitas as possibilidades do poema, neste sentido, uma classificação tradicional divide o poema pelos géneros: épico, lírico e satírico.

O poema épico – compreende, Romance, a canção de gesta, a balada, a epopeia, o poema heróico, o poema burlesco, o poema didáctico e o poema alegórico; 

O poema lírico – compreende, a calanto, o acróstico, a balada, a canção, o canto real, o soneto, a elegia, o haicai, o hino, o terceto;

Poemas satírico – poema satírico, o poema humorístico e a paródia, (Garcia, 2010, p. 41-43).

 

POR MIM, SOMOS ENTIDADES DEFINIDAS PELO ATRASO NA EXPRESSÃO: ouvir ou escutar?


Antigamente, tudo se apresentava como um simples reflexo do que viria ser Literatura. Com o tempo, percebi que na verdade, a identificação da Literatura não era somente “um amontoado de frases, orações, períodos e parágrafos”, pois a premissa primordial da Literatura extrapola esse conhecimento. Não é gostar de… e também não é só ter conhecimento de…para que tal o seja. Há necessidade de haver criatividade, leitura exaustiva para saber os caminhos “apropriados” e/ou “adequados”. O meu primeiro contacto com a Literatura, principalmente a Literatura Moçambicana, deu-se através dos poemas de diversos autores/escritores moçambicanos, apresentados tendo em conta seus períodos por: Peres Laranjeira, Fátima Mendonça, Orlando Mendes, Manuel Ferreira, Frantz Fanon, Mário Pinto de Andrade, Manuel de Sousa e Silva. Neste sentido, a diversificação da Literatura Moçambicana, impactou-me, de tal modo que consegui entender que no início, o que julgamos saber sobre algo; é na verdade, simplesmente não saber nada. Por via disso, Peres Laranjeira, norteou-me tendo em conta (5) cinco períodos específicos para entender a nossa Literatura. Em sua explicitação, deixou em mim ficar “1° período de (Insipiência); 2° período de (prelúdio); 3° período de (Formação); 4° período de (Desenvolvimento) e o último período, 5° período de (consolidação)”. Através destes períodos, comecei a escrever julgando o que os críticos denominam de “avaliação”. Todavia, minhas expressões literárias findavam sempre no que toca às expressões literárias de Noémia de Sousa. Nela, criei meus poemas, prosas poéticas, contos e crónicas (ainda) inéditos, pois acredito que ser escritor não é uma tarefa fácil, mas também não é uma tarefa impossível. Nós não somos definidos pelo que escrevemos, mas pelo que os fruidores captam em nossas escrituras; ou seja, todo escritor é mentiroso, todo escritor frui duas faces, todo escritor cria o irreal na base do real, projectando passos que edificam os sentidos dos fruidores. Particularmente gosto de pensar nas minhas expressões literárias como “Vidas”, isto é, a vida é única e nela podemos formar trajectórias diversificadas. Este sentido da diversificação da trajectória expressa os diferentes passos, a peculiaridade de “vidas” que um poema consegue transmitir no fruidor. Sempre tenho indagações sobre a perspectiva literária moçambicana e também sobre o número excessivo de “escritores” e menor número de “leitores”. Respondo quase sempre as minhas questões na base desse prefácio: “somos aquilo que somos, definidos ou não, nós temos uma parte na Literatura Moçambicana”. Através do prefácio, pensei e continuo pensando…escrever? Ou simplesmente apresentar as minhas ideias de forma oral para todo mundo escutar e não ouvir. Continuo na dúvida se irão me entender, mas creio ser uma decisão tomada por muitos escritores contemporâneos da Lusofonia. Agora, conto com muitas inspirações porque sempre dei conta que precisamos de entender antes de julgar o que pode ser considerado “adequado” ou “apropriado” na Literatura. Desde então, escrevo como nunca escrevi, escrevo como nunca pensei, escrevo porque acredito que as ideias postas no papel moldam o reflexo do mundo.  

PARADIGMAS SUBMERSOS AOS POEMAS DE ELÍSIO MIAMBO: "Muedas" e " To whom do you belong?"

O exercício da escrita, da leitura/interpretação e análise são um leque vasto de desafios. Quando a prior olhamos para “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas”, ficamos perplexos, pois nada sabíamos, se não um livro lançado por Elísio Miambo – escritor moçambicano e amante das Letras, talvez seja o motivo principal que o levou a considerar: “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” como ponto e/ou reflexo do seu segundo livro. Esse exercício, aproxima-se ao nosso reflexo da Diáspora da Literatura Moçambicana, afinal – cada escritor moçambicano encontra numa dimensão tripartida suas afeições: Lírica, Narrativa e Dramática. Elísio Miambo, neste exercício, aponta o hibridismo como sua aspiração, apontando suas expressões literárias, emparelhadas em um género artístico Hip-Hop. Através dessa fragmentação, pensamos no seu prefácio: “nem poesia, nem prosa, um senão prosódico expressivo e contemplativo”. O livro intitulado Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas está dividido em (3) três Actos: sendo primeiro (Catarse); segundo (Kiini), por fim, terceiro acto (Epístolas). O exercício encontra bases nestas divisões apresentadas no livro de Elísio Miambo, publicado na segunda chamada literária Fundza. Seus pontos decorrentes deste exercício marcam os paradigmas submersos aos poemas elisianos – segundo recitou a MA. Helena no seu Artigo Científico. Neste sentido, contamos, “Muedas”, um dos poemas seleccionados para o exercício e que consta do primeiro acto do Livro (“Catarse”) e, por fim, (“To whom do you belong?”) – apresentado no segundo acto (Kiini). A nossa reflexão mediante esses poemas não implica, necessariamente o desfavorecimento dos demais, porém, encontramos simetrias inegáveis para o nosso exercício de análise. Por via disso, indagamo-nos perante o exercício: Será que vale o esforço? Será que há necessidade de se perder recursos para que tal o seja? Olhe, as respostas mergulham em nós, encontrando bases que edificam o nosso pensar supremo, daí, Elísio Miambo frisou em sua nota: “os livros não são apenas letras. Objecto. São vidas”. Assim garantimos nossa forma de prospectar, de conversar com o autor através dos poemas: Muedas e To whom do you belong? Acreditamos ter sido seu prefácio que nos fez entender as palavras de Horácio: “recomendo aos jovens poetas, respeito aos modelos gregos e a busca do equilíbrio entre as partes do poema, observando o “decoro” e a “verosimilhança”, para que o poema fosse belo e bem construído”. Neste sentido, Horácio proporcionou a “verosimilhança” no sentido de que a poesia deveria provocar no fruidor a sensação de realidade e, para o “decoro”, Horácio usou para traduzir o “adequado” e ou “apropriado” – isto seria o mesmo que ajustar a sua obra ao público, fornecendo os [possíveis] vínculos emocionais entre os fruidores e a obra poética, (Regino, 2011). Enquanto conversávamos, Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas apresentava o que na linguagem de Aguiar e Silva poderia se sentir como enraizamento na relação e no aprofundamento do próprio “eu”, na imposição do ritmo, da tonalidade, das dimensões, enfim, desse mesmo “eu”, a toda realidade. Por isso, os poemas elisianos apresentam esse lirismo, revelando as emoções de um eu-lírico que representa, assim, a voz que se expressa no poema e tanto que notamos a apresentação dos sentimentos do “eu-lírico”. Elísio Miambo, através do seu prefácio convida-nos a voltar aos poetas ligados ao Simbolismo, estilo de época de fins do Século XIX, integrando, assim a visão de Nahia e Dias (2023) sobre a referenciação do chamado poema em prosa. Os poemas elisianos denotam os elementos poéticos a partir de “poemas definíveis por seu tema ou tom”. Este exercício conduz-nos a recuperar certas propriedades literárias e através desta indagação “será que vale o esforço?”, tomamos a “literariedade” – um termo que se atribuiu à Literatura através das características que o tomam como “ texto literário”. Todavia, a nossa percepção sobre a literariedade extrapola a ideia inicial que considera a literariedade estar apenas no texto porque na verdade, os mais radicais, segundo Abreu (2007), a literariedade não está nunca no texto – e sim na maneira como ele é lido. Neste caso, vale o esforço, pois os poemas elisianos ganham sentidos distintos de acordo com aquilo que se imagina que eles sejam.

A nossa análise começa com o poema “Muedas”. Primordialmente, ressaltamos que o auge dos poemas de Elísio Miambo no seu livro intitulado “Brumas Desfeitas, Clausuras Desnudadas” reveste-se, como anteriormente afirmado, de “poemas definíveis por seu tema ou tom”. O poema “Muedas” mergulha em um turbilhão de emoções e memórias, explorando a fragilidade da alma, a dor da perda e a busca por reconciliação com um passado marcado por amor e sofrimento. Elísio Miambo, escritor e jovem moçambicano, docente na UniSave, explora esses temas em seus poemas de forma recorrente, o autor encontra uma forma de dar vida às palavras através do seu foco lírico. Elísio Miambo, através de uma linguagem poética carregada de imagens e simbolismos, transporta-nos para Mueda, local que se torna palco de um drama pessoal e, ao mesmo tempo, de uma profunda reflexão sobre a experiência moçambicana, isto porque a nossa história não é assim tão leve de contar. O poema começa por reticências, o que postulamos existir uma história que se reveste de elegia, de sentimento melancólico, pois isso, denota: “…é 1960”. Salvo pelos registos, Elísio Miambo usa esta data simbólica para nos fazer reflectir sobre o Massacre de Mueda que aconteceu durante uma reunião pacífica do movimento pré-independência de Moçambique e, como podemos perceber, o eu-lírico encontra em sua linguagem, aspectos imagéticos para representar esse sentimento penoso. O poema “Muedas” estrutura-se em versos livres, com uma linguagem rica em imagens, metáforas e figuras de linguagem, como a personificação e a metonímica. A voz poética se expressa com intensidade e fragilidade, revelando um estado emocional profundo de dor e saudade. A repetição de “Mueda” ao longo do poema, como um mantra, reforça a importância desse lugar na memória de eu-lírico. Por isso, o poema, gira em torno da perda de um amor, com o eu-lírico buscando reconstruir fragmentos de um passado que o marcou profundamente. As imagens de “pedaços da alma”, “retalhos sentimento” e “estilhaços da voz” evocam a fragmentação da alma e a impossibilidade de recuperar o amor perdido. 

Podemos entender que a cidade de Mueda torna-se um símbolo da memória, do passado e da dor. O eu-lírico sente-se preso a essa lembrança, a qual ele tenta exorcizar mas que parece estar profundamente entranhada em sua alma. O poema ainda demonstra a busca do eu-lírico por uma reconciliação com o passado e a libertação da dor que o assombra. O encontro com o “street kid” e a compaixão que ele sente, representam um passo em direcção à cura e ao perdão. “Pedaços da alma…estilhaços da voz”: a metáfora da fragmentação da alma, do sentimento e da voz, representa a profunda dor da perda e o impacto que ela teve sobre o eu-lírico. “Guitarra que se enfurece…Swing do jazz”: a imagem da guitarra que se enfurece em um swing de jazz, evoca a intensidade do amor e da paixão, que agora se transforma em sofrimento. “Broa…Eternidade”: a broa simboliza o alimento do amor e a promessa de um futuro eterno, que foi quebrada. “Gato preto…Street Kid”: o gato preto representa a melancolia e a solidão, enquanto o street kid simboliza a fragilidade da vida e a necessidade de compaixão. “Mueda…passe ante a patrulha”: a moeda que o eu-lírico entrega ao street kig representa um acto de compaixão, mas também a fragilidade da vida e o poder opressivo da patrulha. Este poema “Mueda”, deixa uma experiência de Mueda, com suas implicações pessoais e sociais, representa um reflexo do passado do país (Moçambique) e das marcas que a guerra deixou na alma do povo. Por esse motivo, Elísio Miambo convida-nos a reflectir sobre a fragilidade da alma, a dor da perda, a busca pela reconciliação com o passado e a importância da compaixão humana. Através de uma linguagem poética rica e imagens poderosas, o poema nos convida a olhar para a experiencia moçambicana com sensibilidade e profundidade, revelando a forca da memória, a importância da busca por cura e a esperança de um futuro mais humanizado. 

O segundo texto a ser analisado é o intitulado “To whom do you belong?”. O poema apresentado é uma profunda reflexão sobre o amor, a distância, a esperança e a desilusão, tudo permeado por uma crítica social e política afiada, características marcantes da literatura moçambicana contemporânea. Através de uma linguagem poética e imagens vividas, o poema tece um relato sobre um amor à distância, permeado por uma constante expectativa e pela promessa nunca realizada de um reencontro (“one day you will be mine”). O poema em análise é estruturado em versos livros, com rimas esparsas e uma linguagem coloquial, próxima da oralidade moçambicana. Essa escolha confere um tom informal e íntimo à obra, aproximando o leitor da voz do eu-lírico, que se expressa com naturalidade e autenticidade. A presença de gírias e expressões populares, como “cágado”, “gajos”, “em pleno garimpo”, entre outras, realçam a identidade cultural moçambicana do poema e contribui para a sua originalidade. O tema central do poema gira em torno do amor à distancia, evidenciado pelo verso “Penso em ti e na distancia que nos divide”. O eu-lírico anseia pela presença do seu amado, que se encontra distante, expressando a dor da separação e a esperança de um futuro encontro. O eu-lírico nutre a esperança de que um dia estará junto ao seu amado (“One day you will be mine”), mas essa esperança é constantemente frustrada (“E o tal day nunca chega”). A promessa de um futuro feliz é repetida (“ressona again, again and again”), mas a realização desse sonho se torna cada vez mais improvável, devido a obstáculos que o eu-lírico não revela no poema. Ainda constatamos que o poema transcende o tema amoroso e conecta-se com a realidade social e política de moçambicana. A referência à “vaca leiteira da Silicon Valley” e aos “filhos de hoje, em pleno garimpo”, evoca o cenário da exploração económica e as desigualdades sociais, denunciando a busca por riqueza e poder que domina a sociedade. A menção à morte de Samora (“as do dia em que mataram Samora”) remete para o período de instabilidade política e violência que marcou a história de Moçambique, mostrando como esses traumas ainda persistem na memória colectiva. Assim como no primeiro, neste poema também, Miambo goza de imagens e símbolos para representar a sua expressão literária: “Algas florescem…Lagoa sem água” a imagem das algas que florescem, mas que serão destruídas pela falta de água, simboliza a fragilidade da esperança e a efemeridade da felicidade: “Breaking news…Vaca leiteira da Silicon Valley”: essa referência aos “breaking news” e à metáfora da “vaca leiteira” representa a constante busca por informações e novidades, a influência da cultura globalizada, mas também a exploração e a busca por lucro que caracterizam o mundo contemporâneo. “Gajos bons em todo lado…Berlim Fevereiro de 85”: a ideia de “gajos bons em todo lado” sugere a crença na bondade humana, mas a lembrança de Berlim em 1985, um período de tensões políticas e guerra fria, levanta dúvidas sobre a permanência da bondade em um mundo marcado por conflitos. Neste poema em análise podemos perceber que se representa uma complexa teia de temas que se entrecruzam, explorando o amor à distância, a esperança e a desilusão, a crítica social e política, a hibridização cultural e a memória do passado. Neste poema, o eu-lírico coloca-se como um observador atento da realidade, buscando respostas para as questões existenciais e sociais que o cercam, utilizando uma linguagem poética rica e original. Através da sua obra, podemos compreender as características da literatura moçambicana contemporânea, marcada por um compromisso com a realidade social, a busca por novas formas de expressão e a valorização da identidade cultural.   

 
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