O Palco de Criação

No Palco de Criação, o céu em turbilhão,

Deus, num abraço de anjos, em fúria e canção.

Um sopro divino, em luz e cor, a vibrar,

Adão, em repouso, pronto para se afervorar.

A mão estendida, um gesto a desafiar,

A distancia entre o Criador e a Criatura a desafiar,

O dedo de Adão, em busca do Contacto,

A centelha da vida, um encontro tão intacto. 


O corpo em repouso, a alma em despertar,

No olhar de Adão, o universo a se afogar,

No toque da mão, a vida a se acender,

Um novo amanhecer, a história a se entender.

Deus, em seu poder, a vida a conceder,

No céu e na terra, a história a escrever,

A obra-prima, em cores, a vibrar,

No espelho da arte, a alma a se encontrar.


O Silêncio

 Nas entrelinhas do silêncio, encontro-me refugiado

Procurando o mal que atormenta o rio Eufrates

Sem explicação, encaixo-me no encaixe do nada

Acredito que somos apenas laranjas num jogo sujo…

Sabia? 

Seus dedos apontam sempre ao sangue

Ao ferido, ao cadáver morto sem piedade.

Que malditos xitaporas do mundo sem bondade…

Mas que bondade? Se ao menos soubéssemos o significado,

Acho que das entrelinhas do silêncio teríamos a resposta.


Entretanto, é o silêncio chingando o silêncio

É dor de ver o silêncio brincando com o silêncio

Senão o silêncio rebolando pela vergonha que dá ao mundo

Que silêncio estúpido

Maldito

O mal dito está sobreposto ao silêncio

Pois, nem todos estão em silêncio

Tornamo-nos vagabundos do destino infernal

O rio já está seco…demónios passeando pela terra

Nas escadas, o mestre desce, soube, desce

Maldito é o silêncio que invade a minha alma.


A vida pertinente

Num sopro fugaz, a centelha que dança
E nos ascende,
Um universo contido em cada instante
Que a alma apreende.
Não é mero acaso, nem sorte ao léu
Lancada à brisa,
Mas milagre que pulsa, cancão que se eterniza,
Força indomável que ruge,
Mesmo na mais tenra semente.
É o dom mais sagrado, o fio vibrante, incandescente!
Então ergue a fronte,
Respira este ar que te invade profundo,
Pois cada batida é um grito,
Ecoando pelo mundo.
Nesta tela efémera, és tinta, és traço, és a cor
Mais vital, não desperdices a chance,
Com a ternura do amanhecer,
Pois esta vida,
Esta única vida,
É tudo o que tens para ser!


A simpatia dos amores

Que encanto reside no ar,

Quando os olhos se encontram

E, sem que palavra se diga, as almas se aprontam?

É um fio de luz invisível,

Um aceno discreto,

A finalidade que surge, sem pedir qualquer

Decreto.

Não é forca que impele,

Nem razão que comanda,

Mas um jeito que agrada, uma graça que abranda.

Um sorriso espelhado,

Um gesto que convida,

A conversa que flui, tao leve e

Comprida. 


Há um quê de magia nesse laco

Que se tece, uma súbita alegria,

Que a alma reconhece. Como o sol de manhã

Que beija a flor em botão,

A simpatia desperta, no jardim

Do coração…

São corações em sintonia,

Num compasso sereno,

Um bem-querer que floresce, puro, ameno.

Oh, simpatia dos amores,

Que nos faz suspirar, a mais doce melodia

Que a vida pode nos dar.

Um bálsamo gentil,

Um convite a sonhar…


A dor dos amores perdidos

No crepúsculo da memória,

Onde a luz se esvai devagar,

Residem os fantasmas doces dos amores

Que o tempo ousou levar. Não há pranto ruidoso,

Nem a fúria da perda recente,

Apenas um véu cinzento, um suspiro dormente.

Cada rosto, uma aquarela desbotada pela chuva

Dos anos, cada promessa, um eco perdido

Entre desenganos.

São cancões que não tocam mais,

Mas cuja melodia insiste,

Num tom menor, persistente, na alma

Que ainda resiste.


Lembro-me de mãos que um dia

Buscaram as minhas com ardor, e de olhos

Que espelhavam um futuro cheio de cor.

Hoje, são estrelas distantes,

Brilho pálido no céu do meu peito,

Fragmentos de um vitral quebrado,

Sem conserto, sem jeito.

O Outono da existência traz consigo esta névoa

Sútil,

O perfume das filhas caídas,

De um afecto que foi juvenil.

Não é tristeza amarga, mas um langor 

Que me veste,

Como um manto de saudades

Do que a vida não me deu ou me reste.

E neste jardim de ausências,

Onde o silêncio é flor,

Caminho entre as lembranças,

Colhendo a melancolia do amor

Que se foi, como um barco que some

No horizonte marinho, deixando apenas

A brisa fria e o sentimento de estar

Sozinho…

Com a beleza pungente do que

Um dia me fez encontrar,

E que agora,

Em suave tristeza,

Aprendo a recordar.


 
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